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2.2.07

A “Fé cansada” em ruínas romanas



As bases dos nossos missionários continuam vivas de fé, embora menos fervorosa e menos missionária como outrora. Eles mesmo dizem ter uma ‘fé cansada’, velha e agastada. Contudo, na Itália, não deixa de haver significativas almas devotas e piedosas.


Muitos aqui se dizem ser católicos, pouquíssimos porém frequentam uma Igreja paroquial e só Deus sabe quantos realmente praticam a doutrina da Igreja. Entretanto, as Igrejas e casas religiosas continuam brilhantes de riquezas que lhes vêm da tesouraria estatal dos bens ditos monumentais e culturais (as que ostentam tal credencial) e doutros biz. É também nesse contexto cultural e jurídico que a recompensa financeira dum pároco, por exemplo, não é menos de 800 euros/mês, sem falar doutras fontes de entradas. Mas, para grandes projectos paroquiais, os parócos recorrem quase sempre à contribuição dos respectivos fiéis. Estes correspondem normalmente com magna generosidade.


O clero, na sua maioria, é ancião, isto é, com mais de 60 anos de idade. E muitos estão a morrer na sua velhice. As Paróquias estão sendo despovoadas de padres. Muita carestia mesmo. A propósito, conheço aqui um padre de 90 anos de idade com 6 paróquias a seu comando. O agravante é que aqui o pároco faz quase tudo. Não há muita partilha de serviços litúrgicos com os leigos como nós em África.


No meu contacto com as pessoas nas actividades pastorais, cada vez mais vou cimentando a impressão de que os fiéis que aqui frequentam a Igreja não são muito instruídos na doutrina como imaginava que fossem. Muitos destes são supersticiosos. A devoção aos santos, relíquias e aos lugares considerados santos é assustadora.


Nas Paróquias, tudo é quase super-organizado. O peso dos costumes antigos e a eficiência operativa não deixam muito espaço à salutar criatividade. Se calhar, por isso, muitos jovens, por exemplo, não frequentam às Igrejas por as considerarem “lugares de coisas em desuso”, com nenhuma interpelação interessante a vida deles. Contudo, vejo e sinto que muitos jovens são religiosos, embora não frequentem os sacramentos. Basta olharmos com atenção ao crescente fenómeno das chamadas “seitas satánicas”. Todas compostas e dinamizadas por jovens, com ritos e sacrifícios extremamente perigosos.


Os mais de 3 mil sacerdotes estudantes em Roma, na sua maioria asiáticos e africanos, ajudam nas Paróquias e Santuários, nos fins de semana, festas e nas férias, colmatando assim uma certa carência pastoral. Isto para não contar o significado número de padres africanos que estão a trabalhar quase definitivamente aqui. Alguns padres italianos não vêm porém com bons olhos essa presença africana nas suas dioceses. Há mesmo quém ouse acusá-los de mercenários, e não missionários. Mas, é uma insignificante minoria. O padre negro aqui tem a mesma aceitação como qualquer outro sacerdote de cor branca ou amarela. Não tenho notado significativo sinal de “racismo religioso”. Aliás, muitas vezes ouvi de certos fiéis que os padres negros são muito mais atenciosos e afectuosos com as pessoas nas Paróquias e nos confessionários.


Ouvindo homilias e discursos teológicos de muitos padres e bispos daqui apercebi-me de que a nossa “teologia de Luanda” não está nada deficiente como suspeitava. Eu que lá estudei, teologicamente pensando, me sinto a vontade aqui com os colegas e os fiéis. Nos superam apenas na quantidade bibliográfica, mas, não necessariamente na qualidade. Quero dizer, não estamos na periferia do mercado global do conhecimento, ao menos no saber filosófico e teológico. O resto, como sempre, depende do empenho académico do próprio estudante, quer aqui quer noutra parte do mundo.


Eu até sou do parecer que as especialidades em filosofia, teologia e sociologia poderiam mesmo serem feitas em África. Aqui vir-se-ia somente para estudos especializados de exigese bíblica, psicologia e outros saberes de que ainda não dispomos de quadros especializados suficientes para tal. Por outro, os nossos bispos já se deviam ter apercebido dos avultados ríscos e dispêndios económicos e pastorais. Não são poucos os casos dos padres que aqui vêm buscar canudos a troca da própria fé.